Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Paulo Fatela

Blog sobre artes, ofícios, paixões e diversas questões

Paulo Fatela

Blog sobre artes, ofícios, paixões e diversas questões

In "Café Portugal" Fundão - Madalena, a bordadeira que não deixa morrer o bordado de Castelo Branco

 

Fundão - Madalena, a bordadeira que não deixa morrer o bordado de Castelo Branco

O bordado de Castelo Branco, cujos primeiros exemplares remontam ao século XVI, corre o risco de desaparecer. Uma realidade que angustia Madalena Novo, bordadeira que mantém viva esta arte. Com o linho e seda, Madalena cria painéis de parede, toalhas de mesa e marcadores de livros. Os motivos nascem na natureza rica da Beira Baixa.

Ana Clara | terça-feira, 6 de Agosto de 2013

 

Madalena Novo, 65 anos, nasceu no Fundão. Da sua terra nunca saiu, porque, como diz, «é nas origens que se sente feliz». Uma felicidade estampada no rosto quando o tema de conversa é o bordado de Castelo Branco. Uma arte que Madalena aprendeu ainda em menina, com 12 anos.

Considerado uma «preciosidade da Beira Baixa», como realça, o bordado de Castelo Branco distingue-se de todos os outros, «por ser único e trabalhado em seda natural». A componente da seda, tal como o linho, está intimamente ligada à região, já que desde o século XVI e seguintes, fruto das condições óptimas, a amoreira florescia por esta zona, permitindo a criação de bicho-da-seda. 

As populações dessa época souberam então aproveitar os recursos existentes», recorda, acrescentando que «conhece melhor que ninguém» a história deste bordado que a acompanha há mais de cinco décadas. 

Madalena Novo explica, por isso, que os motivos das peças que confecciona são sempre os mesmos «e ligados à história» da Beira Baixa e do bordado: pássaros, flores, árvores, campos e rios. «Tudo elementos que nos caracterizam», reforça.

É no Fundão que, desde há dez anos (depois da reforma), Madalena tem uma loja. Um espaço onde vende as suas peças. A partir daqui, a bordadeira envia os seus trabalhos para outras lojas, um pouco por todo o país. Uma arte que aprendeu também em Castelo Branco com outras bordadeiras locais. 

Madalena teme apenas que «esta arte morra» porque, garante, «os mais novos não se interessam por manter a tradição». Os preços também não ajudam a fomentar o negócio, já que, como reconhece, «são muito elevados. O linho e a seda são produtos caros, e estes bordados são adquiridos por uma classe média/alta, com capacidade económica. Com a crise que todos vivemos, sente-se muito também as quebras nas vendas», lamenta Madalena. 

A nossa interlocutora, que se assume como «proactiva», não baixa os braços. Para combater as dificuldades, lançou recentemente um novo produto que alia o bordado a outras peças, nomeadamente de decoração e até mesmo utilitárias. 

«Decidi fazer bonecos que representam os pastores da serra da Estrela, marcadores de livros e saquinhos de cheiros, com alguns acabamentos em linho e em seda, tal como faço nos bordados», informa, acrescentando que «até ao momento estão a ser um sucesso». 

Dado o Bordado de Castelo Branco «ser um produto reconhecido a nível nacional» é normal existirem artesãs «a produzir o referido bordado» noutras regiões do país, saliente Joaquim Morão, presidente da Câmara albicastrense. 

O edil garante que o bordado de Castelo Branco não se encontra em vias de extinção já que «ele foi revitalizado com a criação da Associação dos Bordados de Castelo Branco, numa iniciativa tripartida (Câmara Municipal de Castelo Branco, Instituto Politécnico de Castelo Branco e Associação para o Desenvolvimento da Raia Centro-Sul - ADRACES)».

E conclui dizendo que o município tem promovido este bordado através do apoio à Associação, eventos nacionais de artesanato e produtos regionais, bem como com a publicação do livro da autoria de Margarida Ivo Rosa, «O Bordado de Castelo Branco».

Recorde-se que a origem do bordado albicastrense remonta ao século XVI, designados também à época por «bordados a frouxo», por se caracterizarem por um desenho muito próprio, identificável quer pelos motivos que utilizam quer pela forma de os desenhar.

Um bordado comum na região da Beira Baixa, mas que pode também ser encontrado em todo o território nacional e até na Estremadura espanhola.